O Espírito da Terra - uma linguagem comum a celtas e afro-brasileiros

Claudio Quintino Crow

Estabelecer paralelos entre as culturas afro-brasileiras e a celta é uma questão de compreender o significado da palavra ‘paralelo' - elas nunca se tocam, mas caminham juntas, e o mesmo vale para as culturas pré-cabralinas do Brasil.

Paisagem Sagrada

Os povos nativos das terras brasileiras, assim como as culturas africanas que aqui aportaram, possuem uma compreensão bem diferente do que seja paisagem e, mais ainda, do que seja sagrado. Ao contrário da moderna visão ocidental, com sua obsessão pela "coisificação" do mundo e a depreciação filosófica do que seja material - percepção que nos leva a ver a paisagem como uma sucessão de ‘coisas' que nós, humanos, podemos usar e abusar a nosso bel prazer -, tanto nas culturas africanas emigradas quanto os povos indígenas autóctones do Brasil percebem na paisagem a existência de uma ‘presença espiritual' que anima (dá alma) cada característica de um determinado local. Assim, para essas culturas, um rio não é somente um curso d'água, mas uma entidade espiritual, divina, sagrada, viva. O mesmo vale para árvores, montes, fenômenos meteorológicos e tudo aquilo que compõe a natureza de uma localidade. Entre os culto s afro-brasileiros, os orixás são esses espíritos da paisagem sagrada que interagem diretamente com cada um de nós.

‘Índios' da Europa

Os celtas são os povos nativos da Europa, e sua percepção da sacralidade da natureza é bastante semelhante. Entre os povos celtas, toda a paisagem é sagrada, pois dela emana a energia que mantém vivas as comunidades humanas e de outras criaturas que nela habitam. Essa percepção ainda se preserva em terras celtas como a Irlanda, onde é fácil sentir a presença do "espírito lórico" de cada local. nascentes e rios, por sua capacidade de fornecer as bases da existência da vida - a água - eram especialmente honrados, sendo retratados como espíritos femininos geradores e mantenedores de vida: em outras palavras, deusas. Os rios irlandeses Shannon e Boyne, por exemplo, receberam seus nomes modernos a partir do nome celta de deusas - Síonann e Bóann, respectivamente. O mesmo ocorreu com o Clyde (Clotha) na Escócia, o Severn (Sabrina) no País de Gales, o Sena (Sequana) na França e até mesmo o Danúbio (Danu) da Europa Central - para citar apenas alg uns exemplos. A toponímia dessas regiões é riquíssima em elementos que comprovam a percepção da sacralidade da paisagem entre os celtas, e a rica tradição irlandesa do Dindshenchas (literalmente, o "Conhecimento dos Lugares Sagrados") revela através de seus verbetes que praticamente todas as características do relevo irlandês estão associados a uma ou mais deidades.

Numa análise superficial, isso pode ser visto como uma manifestação 'supersticiosa' de um povo ‘primitivo' - notar as aspas. Mas revela, na realidade, uma compreensão de integração entre o ser humano e o resto da comunidade viva de uma região - algo facilmente observável entre os povos africanos e também entre os ameríndios do Brasil.

Mesma Linguagem

Essa integração fornece as bases para uma reforma de pensamento e de filosofia, que tem por objetivo religar - em latim, ‘religare', a raiz da palavra religião - o ser humano com o mundo em que ele vive de forma sagrada e harmoniosa. O desenvolvimento dessa "nova" filosofia - que em realidade é um resgate de consciências passadas, tanto celta quanto africana e dos demais Primeiros Povos - promove uma nova compreensão do papel de cada um de nós no mundo, e tem o condão de curar as relações visivelmente adoentadas entre humanos e Paisagem. Essa é a linguagem comum de druidas e sacerdotes afro-brasileiros. Não por acaso, em meu trabalho de divulgação do druidismo em terras brasileiras, sempre que há contato entre druidas e seguidores das diversas ramificações dos cultos afro-brasileiros a identificação é imediata. Falamos línguas diferentes, mas a mensagem é a mesma. Ou melhor, falamos o mesmo idioma - o que varia é tão somente o sotaque...

Afinal, tanto entre os druidas quanto entre os praticantes do candomblé e da umbanda, do catimbó e da pajelança, parte-se do pressuposto de que o ser humano é apenas MAIS UM dentro de uma sagrada comunidade mais ampla que envolve os outros animais, as árvores, os rios, as montanhas, cada rocha e seixo, cada vento e gota de orvalho - todos unidos e igualados pela sacralidade da existência, todos em busca de uma coexistência harmoniosa e produtiva, todos divinos por serem manifestações individuais de uma sacralidade coletiva. O resultado disso é justamente o surgimento de uma consciência de que a Cura em seus diversos níveis - físico, mental e espiritual - só ocorre plenamente em cada um de nós quando essa cura se opera não só no indivíduo em questão, mas também na comunidade e na Paisagem como um todo.

Historicamente, não há vínculo direto que possa justificar os elementos comuns entre culturas tão afastadas étnica, cronológica, geográfica e culturalmente quanto a celta e as afro-brasileiras. Num nível mais profundo, porém, essas semelhanças são explicadas pelo fato de que, em última análise, tanto uma quanto a outra - e inclua-se também as nações nativo-americanas, os Maori, os incas, os berberes e tantos outros - todas elas pertencem a uma mesma grande tribo: a tribo humana. Esta, por sua vez, pertence a uma grande "federação" de tribos: a Vida deste planeta.