Inspiração, conhecimento e retribuição

Gûyratinga 

Um dos temas principais trabalhados no druidismo é a busca pela inspiração, chamada awen em galês antigo ("inspiração que flui") e imbas em irlandês antigo. Como tudo na natureza, essa "inspiração que flui" não é uma energia que surge do nada. Ela é o resultado da forma como interagimos com o mundo e no mundo, e das conexões que estabelecemos com os outros seres.

A inspiração não é gratuita; ela deve ser alimentada. Para ilustrar essa idéia, podemos usar a visão corrente que nossa cultura tem a respeito da inspiração. Quando se fala nesse assunto, a primeira imagem que nos vem à mente é a de um poeta, que recebe de repente um lampejo brilhante que lhe permite produzir alguma obra genial. Entretanto, como disse o inventor Thomas Edison, o talento consiste em um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração. Ou seja, o poeta da nossa imagem trabalhou muito antes de chegar a essa obra genial. Mas de que forma ele fez isso?

Certamente, existem diversas formas de se lapidar um talento, e obviamente a maior parte dos artistas não são druidas, e portanto não trabalham com o conceito de awen. Mas é possível abordar o tema sob uma perspectiva druídica, e desenvolver formas de "alimentarmos" a nossa inspiração.

Para entender de que forma podemos trabalhar a inspiração de um ponto de vista druídico, é importante lembrar que não é possível ter a inspiração sem a expiração, assim como não há dia sem noite, luz sem escuridão, bem como tantos outros opostos complementares e interdependentes que poderíamos citar. Esse conceito deriva do fato de que nada no universo é independente de todo o resto, e uma das percepções que devem ser desenvolvidas pelo druida é a de que todos os seres - animais, vegetais, minerais e até as criações do homem - estão inseridos em uma teia de inter-relações na qual um ser depende do outro, e na qual a ação de um ser influencia toda a teia.

Essa idéia tem ficado cada vez mais clara em tempos recentes, em que vemos nitidamente, por exemplo, de que forma algumas ações do homem em um canto do mundo têm influenciado o clima do planeta como um todo. Mas esse é apenas um aspecto mais visível de um fenômeno que se dá tanto no micro quanto no macro.

Assim como é importante, hoje mais do que nunca, que o homem aprenda a interagir com o mundo de forma a manter o equilíbrio de toda a teia tanto quanto possível, é importante sabermos, individualmente, agir em nossas vidas cotidianas de forma a tornar possível esse equilíbrio - afinal, mais uma vez, cada um de nós pode ser visto como o micro que influencia o macro, e as ações individuais têm efeito sobre o todo.

Uma das formas de fazermos isso na nossa vida diária é retribuir pelo que recebemos. Retribuir nada mais é que recompensar, dar em troca. E a palavra "troca" é central para a existência de todos os seres que compõem a teia de que falávamos. Os organismos funcionam a base de trocas químicas, os átomos realizam trocas de cargas uns com os outros, e nós dependemos das trocas de oxigênio e dióxido de carbono com o nosso meio ambiente.

Assim voltamos à idéia de que não há inspiração sem expiração - não podemos apenas receber sem nunca dar nada em troca. Mais uma vez, podemos encontrar no macro o resultado desse desequilíbrio - a exploração dos recursos naturais do planeta pelo homem sem uma contrapartida nos trouxe à atual crise, em que essa exploração tornou-se um perigo iminente à nossa própria sobrevivência e à de outros seres que dividem conosco este planeta.

Assim, vemos que para que o equilíbrio da teia seja mantido, não podemos receber sem dar nada em troca. Não podemos agir como barreiras ao fluxo da awen. Para isso, é útil meditarmos sobre tudo o que recebemos, para ter a medida do quanto precisamos retribuir. De que forma você retribui o alimento que ingere (que em si já é uma troca - a morte de um ser pela continuação da sua vida). De que forma você retribui pelo conhecimento que chega às suas mãos?

Claudio Quintino diz que "ter acesso ao conhecimento é um direito de todos; transmitir conhecimento é um dever de quem tem". Mas a transmissão do conhecimento não precisa ser feita necessariamente numa relação de mentor e aprendiz. Mas é importante frisar, mais uma vez, que para que haja equilíbrio nas relações, é preciso que haja algum tipo de troca.

Para ficarmos no âmbito da aquisição de conhecimento, algumas vezes parece que a vida nos trouxe alguns conhecimentos "de graça", e nesses casos, é importante lembrarmos que também temos que retribuir - lembre-se, mais uma vez, de que não é possível inspirar indefinidamente sem expirar, pois dessa forma não há troca, e as células não serão alimentadas de forma eficaz.

Não me cabe aqui prescrever formas de realizar essa troca, até porque isso é algo profundamente pessoal, e que será descoberto por cada um através da percepção da interconexão e do conseqüente estabelecimento de um contato verdadeiro, de espírito para espírito, com os demais seres que compõem a teia da existência.

Mas o que me cabe, como forma de retribuir tudo o que tenho aprendido e recebido através do druidismo, é alertar para a necessidade de avaliarmos, sempre, se estamos retribuindo a contento pelo que recebemos, como também para a necessidade de estabelecermos essa troca em todos os aspectos do nosso cotidiano, como forma de garantir que a inspiração continue fluindo através de nossa vida e alimentando todas as nossas relações.

7/9/2008