Gûyratinga
Uma das características que diferenciam as religiões neopagãs da maior parte das religiões "estabelecidas" é a ênfase que aquelas dão ao caminho do sacerdócio, enquanto estas dividem os fiéis em seguidores e sacerdotes. Assim, enquanto a maior parte das religiões que conhecemos designa papéis específicos e diferenciados para aqueles que desejam se dedicar inteiramente à religião e para aqueles que preferem seguir seus preceitos sem no entanto desempenhar atividades sacerdotais, nas atuais religiões neopagãs, ligadas à terra, tais como a wicca, o xamanismo e o druidismo, o compromisso com o sacerdócio é considerado, no mais das vezes, uma parte obrigatória para aqueles que desejam seguir essas religiões.
É claro que nem todos encaram a questão da mesma forma, até porque as religiões neopagãs são caracterizadas pela ausência de dogmas, permitindo assim maior liberdade àqueles que escolhem trilhar esses caminhos. Sem dúvida, muitas pessoas interessadas nessas religiões não exercem o sacerdócio, aplicando livremente seus preceitos a seu modo de vida da forma que lhes parece mais adequada, assim como há aqueles que se dedicam de bom grado às mais diversas atividades do ofício de sacerdote.
Também no druidismo há aqueles que tentam fazer a distinção entre os sacerdotes e os "seguidores" dessa religião/filosofia. Chegou-se a cunhar um termo para estes últimos, "druidista", numa analogia ao sufixo das palavras budista e hinduísta. Como sabemos, o papel do druida na sociedade celta incluía diversas atividades distintas, que iam do jurista ao professor, do poeta ao sacerdote. Isso porque eles podiam especializar-se em três áreas distintas e não hierárquicas: bardo, ovate e druida.
Grosso modo, o bardo exercia as funções de poeta e historiador, o ovate podia exercer funções de curandeiro e vidente, enquanto o druida era o professor, o juiz, o diplomata. Inspirando-nos nos druidas clássicos, vemos que ser um sacerdote druida engloba as mais variadas atividades, e não só as funções de sacerdote na acepção usual do termo, ou seja, aquele que conduz rituais.
De mais a mais, os druidas formavam, na sociedade celta, uma elite filosófico-religiosa, inseridos numa sociedade mais ampla. Podemos encarar o sacerdócio no druidismo hoje dessa forma, compondo uma "classe" dentro da sociedade em que estamos inseridos, tendo assim a responsabilidade de curar essa sociedade, como reza a tríade:
"Três deveres de um druida:
Curar a si mesmo,
Curar a comunidade,
Curar a terra.
Sem o que não pode ser chamado de druida."
Podemos dizer, portanto, que ser druida hoje é ser responsável pela manutenção da tradição, é viver uma vida digna, é honrar nossas relações, reconhecendo a sacralidade de tudo o que existe e vivendo de forma inspirada, estabelecendo conexões de espírito para espírito com a consciência de que somos todos parte de um grande organismo chamado planeta Terra. Podemos desejar celebrar rituais e ensinar a filosofia druídica para aqueles que desejam segui-la, mas não seremos menos druidas se "apenas" vivermos nossas vidas diárias aplicando em nossas ações os princípios do druidismo, sendo responsáveis por ações que, ainda que invisíveis, influenciarão o restante da teia da qual fazemos parte.
Assim, pelo menos no druidismo, não há motivo para se fugir da denominação "druida", desde que se esteja disposto a viver o druidismo, uma vez que o sacerdócio do druida pode assumir as mais diversas formas e ofícios. O druidismo não é uma espiritualidade de "não-praticantes" - só segue verdadeiramente o druidismo aquele que aplica em sua vida rotineira a filosofia druídica.
Por isso, o druidismo é uma espiritualidade para aqueles que realmente se propõem a uma transformação, a viver a filosofia no seu dia-a-dia, não sendo possível apenas celebrar os rituais oito vezes ao ano e não pensar sobre o druidismo nos outros dias. Seguir o druidismo é viver o druidismo.
agosto/2007